O Terreiro Zoogodô Bogum Malê Hundó, um dos templos mais tradicionais do candomblé baiano, teve seu tombamento como Patrimônio Cultural do Estado decretado pelo Governo da Bahia em 31 de julho de 2026, por meio do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC). A medida, publicada no Diário Oficial do Estado, é fruto de um processo iniciado em 2019 e aprovado tanto pelo IPAC quanto pelo Conselho Estadual de Cultura. Com o decreto, o terreiro passa a integrar oficialmente o Livro do Tombamento dos Bens Imóveis do estado, recebendo mais uma camada de proteção legal.
Localizado na Ladeira do Bogum (Rua Manoel do Bonfim, nº 35), no bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador, o Bogum é considerado pelos estudiosos da religiosidade afro-brasileira uma das casas matrizes da tradição Jeje-Mahi no Brasil.
O próprio bairro onde o terreiro está instalado, de forte concentração de casas de candomblé e de população negra, já foi reconhecido pelo poder público como um verdadeiro "quilombo urbano", testemunho da força da memória negra que se preservou naquele território ao longo de mais de um século.
Resistência, reconstruções e vizinhança
Fundado por volta do início do século XIX por africanos e seus descendentes ligados à nação jeje, o Bogum atravessou, como tantos outros terreiros baianos, ciclos de dificuldade e de retomada — perseguições religiosas, perdas de território para a especulação imobiliária e a urbanização desordenada, mas também períodos de grande vitalidade, sustentados pela dedicação de sucessivas gerações sacerdotais.
Um desses períodos de fortalecimento se deu já no século XX, sob a liderança de Maria Emiliana da Piedade, lembrada como Miliana, que conduziu o terreiro a uma de suas fases de maior prestígio: foi em sua gestão que a comunidade ganhou personalidade jurídica civil, ampliou o número de iniciados e estreitou laços com casas de outras tradições, como o Ketu e o Angola. Foi também nesse período que o Bogum começou a despertar a atenção de pesquisadores ainda na primeira metade do século XX: o folclorista Edison Carneiro documentou o terreiro em sua obra sobre os candomblés da Bahia, e o casal de antropólogos norte-americanos Melville e Frances Herskovits visitou a casa, registrando cantigas rituais que ajudariam preservar a memória e a difundir o nome do Bogum internacionalmente.
No início dos anos 2000, o antropólogo beninense Brice Sogbossi, professor da Universidade Federal de Sergipe, dedicou parte de sua tese de doutorado à cosmologia e ao ritual jeje no Brasil, tendo o Bogum como uma de suas principais referências de campo — mais uma prova de que a casa segue sendo, até hoje, uma fonte viva de conhecimento sobre essa tradição religiosa.
Ao longo de sua história, o Bogum também construiu laços profundos com outros terreiros antigos do Engenho Velho da Federação e arredores — bairro que reúne algumas das casas de candomblé mais tradicionais de Salvador. Entre seus vizinhos e parceiros históricos estão a Casa Branca do Engenho Velho, o Terreiro do Cobre, o Patiti Obá, Lajuomin e o Gantois, com os quais o Bogum compartilha, há gerações, visitas, alianças rituais e memórias entrelaçadas — um lembrete de que os terreiros baianos, embora de nações e ritos distintos, formam uma vasta rede de solidariedade religiosa e cultural.
A liderança do terreiro seguiu, ao longo do século XX, uma linhagem de grandes sacerdotisas — entre elas Doné Valentina Maria dos Anjos Costa, a célebre Mãe Runhó - que tem busto e dá nome à praça do fim de linha do Engenho Velho da Federação -, e Doné Evangelista dos Anjos Costa, Mãe Nicinha, consagrada ao vodum Loko. Desde 2003, o Bogum é dirigido por Nadoji Zaildes Iracema de Mello, mais conhecida como Mãe Índia, neta de Mãe Runhó e iniciada por Mãe Nicinha, que hoje representa a casa nas celebrações públicas e nas negociações com o poder público em torno de sua preservação.

O que é a tradição Jeje?
O Candomblé Jeje é uma das grandes vertentes que, ao lado do Nagô (ou Ketu) e do Congo-Angola, deram forma ao candomblé como o conhecemos no Brasil. Sua origem remonta aos povos de língua gbe do antigo Reino do Daomé — cujo território de influência se estendia pelo que hoje são o Benin e o Togo, alcançando ainda partes de Gana, Níger e Burkina Faso —, de onde vieram, entre outros, os grupos Fon e Maxi (também chamados Mahi ou Mahin), trazidos à força para a Bahia durante o período do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.
Diferentemente da maioria dos terreiros baianos, de tradição Nagô e liturgia em Iorubá, o Candomblé Jeje canta e reza em línguas do tronco gbe, como o Fongbé e o Ewé, e cultua os voduns — divindades da natureza e dos ancestrais — em vez dos orixás cultuados nas casas de origem Iorubá. Ao longo da história, o próprio povo-de-santo Jeje da Bahia passou a se identificar por subdivisões que remontam a diferentes origens étnicas no continente africano, como Jeje-Mahi (ou Jeje-Mahi), Jeje-Savalu, Jeje-Miná-Popô, Jeje-Dahomé e Jeje-Mundubi — cada uma delas guardando particularidades próprias de canto, dança e organização ritual, mas todas parte de um mesmo grande tronco cultural e linguístico.
Entre as figuras mais lembradas na formação dessa tradição na Bahia está a sacerdotisa africana Ludovina Pessoa, apontada por pesquisadores como Luis Nicolau Parès, Ordep Serra e Brice Sogbossi como uma referência fundamental para a consolidação do candomblé Jeje no Brasil — sua memória segue viva tanto no Bogum quanto em outras casas da mesma nação.
Apesar de hoje ser numericamente minoritária diante da tradição Nagô, a nação Jeje teve papel fundamental na formação do candomblé brasileiro, tendo sido uma das primeiras a se organizar de forma estruturada. Ao lado do Bogum, outras casas seguem mantendo viva essa herança na Bahia, como o Hunkpame Savalu Vodun Zo, já tombado pela Fundação Gregório de Mattos e atualmente em processo de tombamento pelo IPAC e pelo IPHAN — de tradição Savalu —, e o terreiro conhecido como Roça do Ventura, em Cachoeira, tombado pelo IPHAN e também representante da tradição Mahin. Juntas, essas casas preservam um patrimônio imaterial de valor inestimável: uma língua litúrgica, um calendário de festas, uma culinária sagrada e uma arquitetura de terreiro que atravessaram gerações e sobreviveram a perseguições, mudanças urbanas e ao apagamento histórico que por muito tempo marginalizou as religiões de matriz africana no Brasil.
Reconhecimento do Estado
Com o tombamento, o Bogum passa a contar com instrumentos legais mais robustos para proteger seu território, suas edificações e suas árvores sagradas — elementos indissociáveis da sua prática religiosa. A medida é celebrada pela comunidade como um reconhecimento tardio, mas fundamental, da contribuição da religiosidade afro-brasileira para a formação cultural, histórica e espiritual da Bahia.
Para Celso Cunha, professor e pesquisador especialista em Patrimômio Negro, os terrreiros de Candomblé são territórios fundamentais na construção da identidade cultural baiana e afro-brasileira.
Recebo a notícia do tombamento do Bogum com o coração cheio. Terreiros como esse são arquivos vivos onde a arquitetura, a língua, a cultura e a fé se entrelaçam para guardar uma memória que a violência da escravidão tentou, sem sucesso, apagar. Cada barracão, cada Vodun cultuado ali é também um documento — talvez o mais eloquente que temos — da engenhosidade e da resistência de um povo que atravessou o Atlântico e recriou, em solo baiano, uma cosmovisão inteira, um pedaço da Mãe África”.
Como custodian (coordenador), no Brasil, da Iniciativa Global Preserving Legacies: A Future for Our Past — parceria entre o ICOMOS, a National Geographic Society e a Climate Heritage Network —, Celso acompanha de perto como a mata, as árvores centenárias e as fontes de água que cercam terreiros como o Bogum não são cenário, mas parte constitutiva do próprio sagrado. “Acompanho, também, com igual preocupação, como esse patrimônio natural tem sido corroído ao longo do tempo: áreas que já foram rurais, cobertas de mata e cortadas por fontes d'água, viraram, com o avanço da cidade, bairros densamente urbanizados — e muitas árvores e nascentes sagradas, como as que o próprio Bogum já perdeu ao longo de sua história, desapareceram sob o concreto”.
Pesquisador do Grupo EtniCidades (PPGAU/UFBA), Celso ressalta que o tombamento é um passo importante, mas os instrumentos jurídicos de proteção do patrimônio ainda precisam amadurecer para dar conta da complexidade dessas casas — que são, ao mesmo tempo, arquitetura vernácula, biblioteca oral, reserva ecológica e espaço de culto vivo, e não apenas "bens imóveis" a serem enquadrados em uma ficha técnica.
“Reconhecer o Bogum como patrimônio do Estado é reconhecer que a história da Bahia não se escreve sem a presença negra e sem suas agências do sagrado. Que essa proteção sirva não só para preservar pedras e árvores, mas para garantir que a Nação Jeje-Mahi continue, como sempre foi, viva — cantando e dançando seus voduns por muitas gerações ainda”, finaliza.