Dois tradicionais terreiros de Candomblé, localizados em Salvador e na Ilha de Itaparica, foram oficialmente reconhecidos como Patrimônio Cultural da Bahia, o Ilê Asé Kalè Bokùn e do Omo Ilê Agboulá. A decisão foi publicada na manhã desta quinta-feira (23) no Diário Oficial.
O reconhecimento de um terreiro de Candomblé como patrimônio cultural vai muito além da preservação de uma construção. O processo avalia o espaço como um território vivo, onde arquitetura, natureza, religiosidade, memória e tradição estão diretamente conectadas.
Critérios de tombamento
Entre os critérios analisados pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) estão a antiguidade do local, a continuidade das tradições religiosas e a preservação de áreas naturais, como matas, nascentes e outros ecossistemas considerados sagrados.
Segundo o professor, pesquisador do Grupo EtniCidades e coordenador local da iniciativa global Preserving Legacies, Celso Almeida, voltada à preservação do patrimônio cultural e aos impactos das mudanças climáticas, os terreiros também são espaços de preservação de conhecimentos ancestrais, incluindo práticas de manejo sustentável da natureza, conhecimentos fitoterápicos e o uso de espécies presentes nos territórios sagrados.
São três terreiros emblemáticos, porque em primeiro lugar representam liturgias distintas: o culto Ijexá, oriundo do estado de Osun em Illesa na Nigéria, sendo o Kalè Bokùn a casa matriz desta tradição na Bahia e Brasil, e situado no bairro de Plataforma na região do subúrbio ferroviário de nossa capital. O Omo Ilê Agboulá, em Itaparica, que representa a matricialodade do culto aos Egungun (os ancestrais divinizados) cujo epicentro afrodiasporico é exatamente aquela localidade do Barro Branco na ilha e, por fim, o Ilê Axé Ojú Onirê, de tradição Ketu, oriunda dos povos Yorubá da Nigéria, e que lança olhares novamente ao Recôncavo Baiano, a Santo Amaro da Puriticacao, destino de muitos escravizados africanos trazidos ao Brasil desde o século XVII”, detalha Almeida.
O processo de tombamento de um espaço envolve uma série de estudos técnicos e apoio especializado. Almeida registra que, nos recentes tombamentos do Ilê Asé Kalè Bokùn, do Omo Ilê Agboulá e do Ilê Axé Ojú Onirê, houve a participação do Grupo de Pesquisa EtniCidades, ligado ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFBA, que ofereceu assistência técnica gratuita às comunidades.
Os três terreiros representam tradições religiosas distintas. O Ilê Asé Kalè Bokùn é ligado ao culto Ijexá; o Omo Ilê Agboulá, em Itaparica, é referência no culto aos Egúngún, relacionado à ancestralidade; e o Ilê Axé Ojú Onirê segue a tradição Ketu.
Assim, o tombamento reconhece não apenas o espaço físico, mas a história, a religiosidade, os conhecimentos e as práticas culturais preservadas pelas comunidades de terreiro ao longo de gerações.
“Os critérios técnicos do IPAC exigem justamente essa visão sistêmica, valorizando a antiguidade, a salvaguarda de ecossistemas sagrados — como matas e nascentes — e a força de uma tradição que se mantém ininterrupta há gerações. É importante também enfatizar o papel das comunidades de terreiro na preservação da natureza, das áreas verdes e do próprio clima. Através de suas práticas, elas preservam um manejo sustentável, um profundo conhecimento fitoterápico e um farto acervo etnobotânico em seu território e nas próprias cidades. Este conhecimento ancestral do manejo com a natureza destas comunidades deveria ser também levado em consideração em processos de patrimonialização, pois acabam atuando como verdadeiras guardiãs do verde urbano, preservando o que o desenvolvimento convenientemente ignora”, explica o professor.
A visita do Rei
No início deste mês, uma visita mobilizou lideranças religiosas, pesquisadores e comunidades tradicionais de matriz africana em Salvador. Esteve na Bahia o Alaafin de Oyó, Ọba Abimbola Akeem Owoade I. Para muitos brasileiros, o nome de Oyó desperta imediatamente a lembrança de Xangô — um dos orixás mais conhecidos do Candomblé e da Umbanda. O que nem todos sabem é que, na tradição iorubá, Xangô também é identificado como um antigo rei do reino de Oyó, localizado na atual Nigéria.
Celso ressalta que a visita tem peso simbólico e histórico para o povo de santo e para quem estuda e pesquisa as relações antropológicas, sociais e religiosas entre Brasil e Africa.
“A histórica visita de Sua Majestade Imperial, o Alaafin (Rei) de Oyó, atua como um poderoso elo transatlântico, legitimando internacionalmente a soberania, a autenticidade e a dignidade inegociável da nossa herança ancestral. Em certas enviadas aos terreiros que visitou em nosso estado (incluindo dois destes três que foram recentemente tombados), ele roga para que continuemos preservando a nossa herança cultural africana, e reconhece que a distância de um oceano nos separa geograficamente, mas não rompe o laço profundo que mantemos com nossa terra a cultura ancestrais”, conclui.