A Polícia Federal (PF), a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a defesa de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, negaram as informações publicadas pela revista Veja sobre um suposto financiamento do documentário “Lula”, dirigido pelo cineasta Oliver Stone. A reportagem, divulgada na sexta-feira (9), atribuiu ao banqueiro a afirmação de que teria liberado recursos para a produção do filme com o objetivo de obter vantagens em negócios com o governo federal.
Os três posicionamentos contestam a versão apresentada pela publicação. A PF afirmou que Vorcaro não prestou depoimento com o conteúdo descrito nem entregou documentos relacionados às acusações. A PGR, por sua vez, esclareceu que não houve depoimento oral do ex-banqueiro durante as tratativas de colaboração premiada, que acabou rejeitada. A defesa também declarou desconhecer a gravação e não reconhecer a autenticidade dos materiais divulgados.
PF e PGR contestam informações publicadas
Em nota, a Polícia Federal informou que as propostas de colaboração premiada apresentadas pela defesa de Vorcaro não foram aceitas por não atenderem aos requisitos legais. A PF também confirmou que recebeu, na sexta-feira (9), uma notícia-crime com pedido de providências urgentes para apurar os fatos relacionados à reportagem da Veja. O caso foi encaminhado à área técnica responsável pelas medidas de polícia judiciária.
A Procuradoria-Geral da República esclareceu que as negociações foram conduzidas exclusivamente pelos advogados do ex-banqueiro, sem interlocução direta entre ele e representantes do órgão. Segundo a PGR, as propostas foram recebidas conforme apresentadas pela defesa, e os motivos da rejeição foram comunicados aos advogados.
“Não houve depoimento oral do Sr. Vorcaro, justamente por conta da rejeição da proposta”, afirmou a Procuradoria, que também ressaltou a obrigação legal de sigilo sobre os procedimentos de colaboração premiada.
A reportagem da Veja sustentou que Vorcaro teria reunido as acusações em um anexo encaminhado à PGR, no contexto das negociações para um acordo de colaboração. O material incluiria um áudio no qual o ex-banqueiro supostamente relataria o repasse de dinheiro para o documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O filme foi produzido entre 2022 e 2023 e lançado em maio de 2024.
Na própria reportagem, a Veja reconheceu que não havia provas de que Lula tivesse se encontrado com Vorcaro, embora tenha relacionado o suposto financiamento a possíveis interesses do banqueiro em negócios com o governo federal.
Defesa desconhece gravação e nega depoimento
O advogado Daniel Bialski, responsável pela defesa de Vorcaro, afirmou ao ICL Notícias que desconhece a gravação e o conteúdo das acusações atribuídas ao ex-banqueiro. Segundo ele, Vorcaro não prestou novo depoimento à PF ou a outro órgão sobre o assunto. “Desconheço a gravação e desconheço o teor dessa história”, declarou Bialski ao veículo.
O advogado também afirmou que não possui e nunca possuiu o disco rígido (HD) do telefone nem os anexos mencionados na publicação. Ele explicou que não integrava a defesa de Vorcaro quando as propostas de colaboração foram apresentadas e disse que pretende conversar com o cliente antes de definir eventuais providências.
Em nota, a defesa declarou que não reconhece a origem, a autenticidade e a integridade dos materiais divulgados. Os advogados também afirmaram que o conteúdo preliminar da colaboração foi disponibilizado a um número restrito de autoridades, submetidas ao dever de confidencialidade. Apesar das negativas, a defesa ressaltou que Vorcaro possui informações relevantes para as investigações e continua disponível para colaborar com as autoridades.
AGU anuncia pedido de direito de resposta
A Advocacia-Geral da União (AGU) informou que solicitará direito de resposta e retificação das informações publicadas, sem descartar outras medidas legais. O pedido busca contestar o conteúdo divulgado pela revista, que atribuiu a Vorcaro acusações envolvendo o presidente da República. A eventual adoção de outras medidas dependerá da avaliação jurídica do caso.
A notícia ganhou repercussão a pouco mais de duas semanas do segundo turno da eleição presidencial, disputado por Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O presidente nacional do PT, Edinho Silva, também criticou as acusações e questionou a ausência de provas que sustentassem a versão apresentada.
Dono da Veja participou de jantar com Flávio Bolsonaro
Em reportagem publicada nesta sexta-feira (9), a Revista Fórum chamou atenção para a participação de Fábio Carvalho, dono da revista Veja desde 2018, em um jantar com o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). A informação foi atribuída ao empresário João Moreira Salles, em artigo publicado na revista Piauí.
A reportagem aborda encontros entre Flávio Bolsonaro e representantes dos setores empresarial e financeiro. Segundo a Fórum, Carvalho estava entre os participantes do jantar, realizado em meio à repercussão das acusações publicadas pela Veja contra Lula. A coincidência entre o encontro e a divulgação da reportagem levou a Fórum a questionar uma possível articulação política por trás das acusações.
Até o momento, porém, a participação de Carvalho no jantar não comprova qualquer envolvimento dele na produção ou na divulgação do áudio atribuído a Vorcaro. Da mesma forma, não há confirmação pública de que a publicação tenha sido resultado de uma articulação com Flávio Bolsonaro.
As negativas da PF, da PGR e da defesa de Vorcaro colocam em dúvida a versão de que o ex-banqueiro tenha prestado o depoimento descrito pela revista. A investigação solicitada à Polícia Federal deverá ajudar a esclarecer a origem do material, sua autenticidade e as circunstâncias de sua divulgação.