Passadas algumas horas do anúncio de que iremos ao segundo turno das eleições presidenciais, começou a chegar ao WhatsApp uma profusão de cards coloridos, feitos por inteligência artificial e estampados com os rostos dos presidenciáveis. Alguns são apenas textuais; outros trazem a foto do adversário em tons mais escuros e obedecem à mesma tônica: “Se eleito, ele vai fazer isso e aquilo. Tenha cuidado”.
Não sei se card no WhatsApp vira voto de alguém. Acho que não. Aliás, virar voto já é um negócio meio do terreno das quimeras: não conheço quem tenha mudado de candidato por causa de uma publicação nas redes sociais, de uma manifestação ou de uma passeata na cidade.

Há diálogo?
Uma pergunta antecede — ou deveria anteceder — a ideia de virar votos: há espaço para o diálogo? Diálogo, não palestra.
Veja: Flávio Bolsonaro teve 56.104.503 votos no primeiro turno; Lula, 53.879.538. Não são 57 milhões de milicianos, tampouco 54 milhões de militantes do PT. São brasileiros que, por isto ou por aquilo, identificam-se com os candidatos, suas falas, ações e propostas.
Se achamos que, do lado de lá — qualquer que seja — só existem inimigos de armas em punho, enquanto do nosso lado estão apenas os santificados e inteligentes, há pouco espaço para a disposição de dialogar.
A presunção de superioridade moral é um obstáculo enorme a qualquer discussão democrática. Não queremos ouvir os outros porque já sabemos que são imorais, indecentes, criminosos — tudo de ruim que há na existência. Partimos do pressuposto de que estamos certos e de que não é possível discordar de nós. E aí não há conversa.
Muito menos mudança de voto.
Esquecemos que, antes do voto, existem posições ideológicas e políticas motivadas por diversos fatores — fatores que pesam muito na hora de apertar os dois botões da urna eletrônica. E não entendemos as motivações do outro lado da trincheira porque preferimos atirar adjetivos contra quem pensa diferente.
Como os debates estão em falta nesta temporada, as posições se tornam cada vez mais rígidas e menos abertas a perceber outros modos de olhar para a política.
Realmente, não sei se card no WhatsApp vira voto. Mas, com certeza, jogar bolinhas de papel metafóricas, esbravejar e chamar de burro e desonesto quem vota diferente é uma estratégia fadada ao fracasso.