O senador Flávio Bolsonaro (PL) divulgou, nesta quarta-feira (28), uma carta em que se declara o “verdadeiro presidente eleito do Brasil” e acusa o processo eleitoral de fraude. O documento foi publicado após sua chegada aos Estados Unidos, onde afirma estar em segurança com a família. No texto, o parlamentar também critica o Supremo Tribunal Federal (STF), questiona o resultado das eleições e anuncia que pretende liderar a oposição brasileira a partir do exterior.
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, escreveu Flávio na abertura do documento. Na carta, ele afirma que o resultado do segundo turno, realizado em 25 de outubro, teria sido marcado por irregularidades e questiona decisões relacionadas ao horário de votação. O senador, porém, não apresenta provas que comprovem a alegação de fraude.
O parlamentar também questionou o aumento da votação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em relação ao primeiro turno. “A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, afirmou, em referência ao ministro do STF Cristiano Zanin. A declaração foi contestada por dados oficiais da votação: segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 34.393 votos foram registrados após as 17h em todo o país.
No resultado oficial do segundo turno, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 48,21%. O presidente do TSE anunciou o resultado no domingo (25). Até o momento, as alegações apresentadas pelo senador na carta não alteram o resultado oficial proclamado pela Justiça Eleitoral.
Além de contestar a eleição, Flávio acusa o STF de perseguição política e afirma que deixou o Brasil por temer medidas judiciais contra ele e sua família. “Não vou submeter minha família a isso”, escreveu. O senador também agradeceu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao presidente da Argentina, Javier Milei, pelo acolhimento.
Na carta, o parlamentar compara sua situação à de figuras históricas que atuaram politicamente fora de seus países, como Rui Barbosa, Charles de Gaulle e José Martí. Ele utiliza essas referências para defender que poderá continuar sua atuação política mesmo longe do Brasil. “Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros”, declarou.
Ao final do documento, Flávio afirma que pretende apresentar estratégias para mobilizar seus apoiadores e fortalecer a oposição. “Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”, escreveu, dirigindo-se a senadores, deputados e governadores aliados. O senador também prometeu se manifestar regularmente nos próximos dias.
A carta encerra com um apelo à mobilização política e à contestação do governo eleito. Apesar das acusações feitas pelo parlamentar, a declaração de que seria o “verdadeiro presidente eleito” não corresponde ao resultado oficial divulgado pelo TSE, que confirmou a vitória de Lula no segundo turno.
Entenda a conta por trás do aumento de votos
No primeiro turno, Lula recebeu 53.879.538 votos. No segundo, foram 64.256.232. A diferença é de 10.376.694 votos a mais. Flávio Bolsonaro também cresceu: passou de 56.104.503 para 59.826.041 votos, um aumento de 3.721.538.

A conta mostra que Lula ganhou cerca de 6,7 milhões de votos a mais que Flávio na comparação entre os crescimentos dos dois candidatos. Isso não significa, porém, que votos tenham sido transferidos diretamente de um para o outro. No segundo turno, eleitores que haviam escolhido candidatos eliminados precisaram decidir novamente entre os dois finalistas, além das mudanças no comparecimento e nos votos brancos e nulos.
Flávio também questionou os votos registrados após as 17h. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foram 34.393 votos nesse período. Mesmo em uma hipótese extrema, em que todos fossem retirados de Lula e atribuídos a Flávio, a diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos cairia em apenas 68.786, permanecendo superior a 4,3 milhões. Portanto, a diferença entre as votações dos dois turnos e os votos registrados após as 17h, isoladamente, não comprovam fraude eleitoral.